Valquiria Vitorino

Aqui no método, nós chamamos de Eu do Passado tudo aquilo que assumimos como dívida em algum momento de nossas vidas e que foi legado para ser pago depois.

Eu sempre tive uma relação bastante plural e por vezes dúbia com a vida financeira. Sempre gostei de aprender sobre organização e investimentos, era uma criança e adolescente que não pedia nem gastava, mas entrei na vida adulta buscando viver experiências e ir atrás de autonomia, sonhos e empreendimentos. Mesmo estudando, lendo e aprendendo, eu eventualmente me complicava financeiramente e entrava em um ciclo de me organizar, resolver as coisas e começar tudo de novo.

Foi por isso que entrei no método: queria aprender mais sobre o aspecto comportamental das finanças (algo inédito para mim) e ter uma relação com o dinheiro mais estável, ser capaz de construir a longo prazo e não só pagar contas. Eu consegui isso, mas tinha ainda um importante obstáculo para chegar ao nível de Loba: um Eu do Passado bem grande. Uma pessoa muito querida da minha família me ajudou em diversos momentos que precisei ao longo dos anos, fosse porque eu realmente estava em apuros, ou então porque tinha feito decisões arriscadas ou mesmo ruins. Em vários momentos eu fui deslumbrada, apressada, otimista, azarada, ou não tinha as informações certas. E eu confesso que cheguei a sentir raiva e até mesmo vergonha dessa Eu do Passado.

Acontece que na Alcateia eu aprendi mais do que técnicas de finanças pessoais ou negócios. Eu mergulhei em muitos aspectos de mim mesma e nos motivos por trás de decisões e ambições, mas também me deparei com algo que eu não imaginava: o exemplo de mulheres incríveis da vida real (e isso não tem NADA a ver com o nível financeiro de cada uma). Conheci mulheres inteligentes, sensíveis, fortes, vulneráveis, criativas, sinceras. Acompanhei os altos e baixos de cada uma diariamente durante quase um ano, em sua maioria pessoas que viviam uma fase da vida ainda distante da minha realidade mas não tão distante assim da minha temporalidade: mulheres que lidavam com família, companheiros, filhos, pais dependentes, altas responsabilidades em seus trabalhos, desafios com saúde, com justiça, com um mundo e uma vida que pode ser cheia de delícias mas também inclemente. Uma fase da vida que estava “logo ali”, mas que eu ainda não tinha contato tão direto. A complexidade dessas experiências e da forma de lidar com elas (afinal as personalidades aqui são tão diversas) me fez entender mais da vida. Me fez ter mais empatia, mais repertório, e um olhar mais sensível para o que é realmente importante e que por vezes requer dedicação e sacrifício.

Muito além do que eu sonhava ser possível, ao fazer trinta anos e com dez meses de Alcateia mudei radicalmente a minha vida profissional, guardei mais dinheiro do que esperava e paguei a dívida com essa pessoa, também uma mulher incrível que tanto me ajudou no passado e continua me inspirando no presente. Mas mais do que isso: eu senti como se estivesse pagando diretamente à Valquíria lá de trás. Apesar de ainda não saber tudo e ter muitos desafios pela frente, hoje eu consigo sentir um certo conhecimento, segurança, serenidade, maturidade e os recursos monetários para ajudar a Eu do Passado. Eu não culpo ela, porque ela foi a guerreira que tomou tantas decisões arriscadas sim mas corajosas e ambiciosas que me trouxeram até aqui. Eu devo tudo à minha Eu do Passado, e eu estou feliz por poder ajudá-la e retribuir, pagando essa dívida que acima de tudo era comigo mesma. Agora os caminhos estão abertos. Eu não sei o que virá pela frente, mas consigo sentir que estou segura em mim mesma, e confio nos meus passos daqui em diante.

A próxima pode ser você….

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